Quero falar novamente do que considero vida; dessa vez, como em todas as outras que havia dito e muitos acharam que eu estava brincando, peço que brinquem de levar isso “a sério”.
Considero vida, ou melhor, sensação de bem-estar, princípio de prazer, felicidade, alegria, satisfação e todos outros conceitos que convergirem na atitude de ser e estar com “saúde mental”, tudo aquilo que não me faça sofrer.
Sofrimento, físico ou psíquico é o que particularmente considero agressão ao espírito, este não sendo algo fora da nossa realidade, nada tem haver com
deus, mas sim, algo que faz a junção das realidades
objetivas e
subjetivas que carrego. É aquele que interpreta e desenvolve os significados dados e criados, e por isso
possibilita dentro dos nossos limites, novos instrumentos, os quais codificam e produzem pensamentos, e inevitavelmente obedecem às sensações que apenas “sentimos”, e isso, felizmente ou infelizmente gera
ações.
Hoje sofro, por não conseguir realizar de forma
satisfatória, nem metade do que existe em potência dentro de mim. Sinto que, lateja em meu corpo, não só um coração que pulsa forte, mas imensas vontades e desejos que poderiam ser colocados no campo do real. Infelizmente, isso se tornou impossível pelo texto e pelo contexto o qual participo; como assim?
Sou fruto das minhas escolhas, mas antes disso, sou filho de um século, de um país, de uma família, de uma escola, de uma moral, e entre outros muitos “de” que devo ter me esquecido, tenho a certeza que não me deixa duvidar o quanto isso tudo determina o sentido e os
atos do meu viver. Não quero entregar-me ao comodismo da supérflua culpa alheia, longe disso, procuro freneticamente soluções que possam prover o mínimo de autonomia nas minhas escolhas, nas
ações e nos meus pensamentos, mas não quero ser hipócrita, isso se torna muito relativo.
Creio ter entrado numa
sinuca de bico, entre minha intensa loucura por viver, escolhi gostar de muita coisa e obviamente creio ter acertado nelas, entretanto, tive a infelicidade de faltar horas, dias e meses para realizar tudo isso.
A idade e o sentimento de parasitismo junto ao
perfeccionismo instituído nesta cabeça maluca, me faz hoje querer parar, não por essas
bobeiras de ter tido uma paralisia facial por
estresse, uma batida de carro num poste e não ter tempo de concertar o nariz quebrado, ou pela
insônia crônica, intensas dores de cabeça, ressacas mórbidas após uma
boemia saudável, melancolias inexplicáveis, coração extremamente acelerado, ou falta de tempo para
transar porque nos fins de semanas também ganhei compromissos importantes; é pelo simples fato que tudo isso me fez estar e sentir inerte.
Acredito na vida quando se pode nela, ou na maioria das vezes, agir. Fazer como o
ator provido da
ação criativa, ou mesmo ter o posto de
diretor, para assim, poder continuar ou mudar a cena e os personagens quantas vezes achar que a prática real não está em equilíbrio com a concepção do roteiro. Quero
ação criativa e não uma observação
reacionária.
Volto com a questão do parasitismo; vou ser franco para evitar falsas interpretações de quem realmente espero à compreensão. Minha formação de vida, com todas as experiências familiares sobre o peso profundo do valor-uso / valor-troca do
fator financeiro (dinheiro), me fez prover olhares atentos no esforço que este valor imaginário instituído num papel-moeda, determina e muito as
ações inter e
intrapessoais, as micro e macro-relações de poder, classificação social e o
estereotipo de indivíduo/cidadão que somos. Sendo assim, vou colocar o que penso
contextualizando à minha idade (21anos).
Creio ainda ser menino novo, para fazer e mudar o quanto quiser o sentido dos meus estudos, das minhas escolhas; mas estou velho o bastante para fazer meu pai e minha mãe ter que trabalhar quatorze horas por dia para pagar minha gasolina, meu almoço, meus livros, minha vida artística e principalmente, meu tempo de lazer. Aqui mora uma estampada angustia que fecha os olhos de vergonha a cada real que peço, a cada minuto que ouço a mercearia solicitando minha presença, e ao invés de atender, me atento a resolver problemas da banda, estudar para uma mais uma prova, fazer mais outro relatório, ou mesmo lembrar que sou humano e falo que vou sair com os amigos; sem falar nas viagens. Sei de cada esforço despendido por e para minha integridade estudantil, e sei o quanto acreditam na próspera retribuição seguida pelo alívio da minha formatura, com
conseqüente primeiro emprego; como se músico não trabalhasse, mas relevo, isso ainda não é pauta.
Antes de me posicionar ou ser posicionado na artilharia dos julgamentos, quero dizer que nunca quis ser, mas agora vou colocar em crise a questão do “parasitismo”; não quero mais, o espírito artístico, estudantil e de latência
revolucionária que no fundo, vive à custa da não-vida alheia. Falo isso, pois o
fator família nunca me importou, mas o
fator “ser humano” sim, e meus pais antes de
genitores meus, são seres humanos e necessitam viver, mesmo com a demora da postura a ser tomada.
Tenho duas lindas profissões
concomitantes, uma militância universalizada e quatro angustias doentias. Ainda não recebo pelo meu trabalho, não tenho tempo de fazer uma faculdade de psicologia no nível do meu desejo, nunca posso estudar musica e/ou dedicar para a banda dissidente um tempo mínimo para meu desenvolvimento técnico e/ou mesmo escrever meus textos literários com o mínimo de
tranqüilidade qualitativa; “respira”, pelo fato do dia ser menor que a ânsia dos meus quereres.
Quero assim, informar a desistência temporária da academia
universitária, para assim, focalizar energia no meu desenvolvimento artístico e também, trabalhar em um emprego que remunere minha vida. Sim, sei o quanto esta escolha é tensa, envolve outras pessoas e principalmente, outra perspectiva de vida. Mas como havia dito, ainda escolho a vida ao invés do sofrimento, e acredito que esta mudança maluca tudo tem haver com esta angustia que sinto hoje; com minha sanidade mental; com meu
perfeccionismo profissional e com a satisfação em fazer pouca coisa, mas fazer com qualidade. Já espero ser acolhido por olhares de desprezo, pelas lições moralistas sobre emprego decente, pelo julgamento sobre minhas condutas, mas, estou
tranquilo para discutir o quanto necessitar sobre o
fator ”vida”, e de antemão já vou
coloquializando meu texto com a palavra “
foda-se” para os não participantes do meu mundo, e espero somente, aos amigos e pessoas
bacanas, que antes de qualquer coisa, lembrem-se que a vida é minha e somente eu, tenho o direito de decidir em ultima
instância, o que é saudável para meu espírito.
Por
Bibi Serafim