29 setembro, 2009

Como aves do oceano

A garça subiu o vôo
E até queria comer macarrão
Daí não pôde porque macacos não comem fritas
O sapateiro mordeu o salto da Cinderela no dia que o pedreiro me ensinou filosofia
E as formiguinhas que bloquearam a avenida vegetal na greve dos gafanhotos
Divertiram enquanto a dona Amélia surtou numa crise de risos fora da estação
Mesmo assim, o dedo não estava em clima para costurar o vestido da neta
Então o adulto brincalhão tornou-se a criança mais idosa em pleno adolescer
E só porque eu queria ser artista, o agrado dos corujas deduraram minha sentença
Receitaram um bolo sem fermento
Para eu murchar ao cheirar aquela receita
“poesia e música”.

Por Bibi Serafim

Ao poema II



No seu exótico,
Contorno.
Em seu ardor,
Embriago.
Com seu abraço,
Acordo.
Ao seu suspiro,
Vivo.
Para
Seu amor,
Compartilho.
“Tão parecidos...”
Aqui respira e descansa o papel do lápis;
A vida se resvala pela poesia...
Seu ar, minha presença, nossa loucura.
Por Bibi Serafim

23 setembro, 2009

Carta,

Quero falar novamente do que considero vida; dessa vez, como em todas as outras que havia dito e muitos acharam que eu estava brincando, peço que brinquem de levar isso “a sério”.
Considero vida, ou melhor, sensação de bem-estar, princípio de prazer, felicidade, alegria, satisfação e todos outros conceitos que convergirem na atitude de ser e estar com “saúde mental”, tudo aquilo que não me faça sofrer.
Sofrimento, físico ou psíquico é o que particularmente considero agressão ao espírito, este não sendo algo fora da nossa realidade, nada tem haver com deus, mas sim, algo que faz a junção das realidades objetivas e subjetivas que carrego. É aquele que interpreta e desenvolve os significados dados e criados, e por isso possibilita dentro dos nossos limites, novos instrumentos, os quais codificam e produzem pensamentos, e inevitavelmente obedecem às sensações que apenas “sentimos”, e isso, felizmente ou infelizmente gera ações.
Hoje sofro, por não conseguir realizar de forma satisfatória, nem metade do que existe em potência dentro de mim. Sinto que, lateja em meu corpo, não só um coração que pulsa forte, mas imensas vontades e desejos que poderiam ser colocados no campo do real. Infelizmente, isso se tornou impossível pelo texto e pelo contexto o qual participo; como assim?
Sou fruto das minhas escolhas, mas antes disso, sou filho de um século, de um país, de uma família, de uma escola, de uma moral, e entre outros muitos “de” que devo ter me esquecido, tenho a certeza que não me deixa duvidar o quanto isso tudo determina o sentido e os atos do meu viver. Não quero entregar-me ao comodismo da supérflua culpa alheia, longe disso, procuro freneticamente soluções que possam prover o mínimo de autonomia nas minhas escolhas, nas ações e nos meus pensamentos, mas não quero ser hipócrita, isso se torna muito relativo.
Creio ter entrado numa sinuca de bico, entre minha intensa loucura por viver, escolhi gostar de muita coisa e obviamente creio ter acertado nelas, entretanto, tive a infelicidade de faltar horas, dias e meses para realizar tudo isso.
A idade e o sentimento de parasitismo junto ao perfeccionismo instituído nesta cabeça maluca, me faz hoje querer parar, não por essas bobeiras de ter tido uma paralisia facial por estresse, uma batida de carro num poste e não ter tempo de concertar o nariz quebrado, ou pela insônia crônica, intensas dores de cabeça, ressacas mórbidas após uma boemia saudável, melancolias inexplicáveis, coração extremamente acelerado, ou falta de tempo para transar porque nos fins de semanas também ganhei compromissos importantes; é pelo simples fato que tudo isso me fez estar e sentir inerte.
Acredito na vida quando se pode nela, ou na maioria das vezes, agir. Fazer como o ator provido da ação criativa, ou mesmo ter o posto de diretor, para assim, poder continuar ou mudar a cena e os personagens quantas vezes achar que a prática real não está em equilíbrio com a concepção do roteiro. Quero ação criativa e não uma observação reacionária.
Volto com a questão do parasitismo; vou ser franco para evitar falsas interpretações de quem realmente espero à compreensão. Minha formação de vida, com todas as experiências familiares sobre o peso profundo do valor-uso / valor-troca do fator financeiro (dinheiro), me fez prover olhares atentos no esforço que este valor imaginário instituído num papel-moeda, determina e muito as ações inter e intrapessoais, as micro e macro-relações de poder, classificação social e o estereotipo de indivíduo/cidadão que somos. Sendo assim, vou colocar o que penso contextualizando à minha idade (21anos).
Creio ainda ser menino novo, para fazer e mudar o quanto quiser o sentido dos meus estudos, das minhas escolhas; mas estou velho o bastante para fazer meu pai e minha mãe ter que trabalhar quatorze horas por dia para pagar minha gasolina, meu almoço, meus livros, minha vida artística e principalmente, meu tempo de lazer. Aqui mora uma estampada angustia que fecha os olhos de vergonha a cada real que peço, a cada minuto que ouço a mercearia solicitando minha presença, e ao invés de atender, me atento a resolver problemas da banda, estudar para uma mais uma prova, fazer mais outro relatório, ou mesmo lembrar que sou humano e falo que vou sair com os amigos; sem falar nas viagens. Sei de cada esforço despendido por e para minha integridade estudantil, e sei o quanto acreditam na próspera retribuição seguida pelo alívio da minha formatura, com conseqüente primeiro emprego; como se músico não trabalhasse, mas relevo, isso ainda não é pauta.
Antes de me posicionar ou ser posicionado na artilharia dos julgamentos, quero dizer que nunca quis ser, mas agora vou colocar em crise a questão do “parasitismo”; não quero mais, o espírito artístico, estudantil e de latência revolucionária que no fundo, vive à custa da não-vida alheia. Falo isso, pois o fator família nunca me importou, mas o fator “ser humano” sim, e meus pais antes de genitores meus, são seres humanos e necessitam viver, mesmo com a demora da postura a ser tomada.
Tenho duas lindas profissões concomitantes, uma militância universalizada e quatro angustias doentias. Ainda não recebo pelo meu trabalho, não tenho tempo de fazer uma faculdade de psicologia no nível do meu desejo, nunca posso estudar musica e/ou dedicar para a banda dissidente um tempo mínimo para meu desenvolvimento técnico e/ou mesmo escrever meus textos literários com o mínimo de tranqüilidade qualitativa; “respira”, pelo fato do dia ser menor que a ânsia dos meus quereres.
Quero assim, informar a desistência temporária da academia universitária, para assim, focalizar energia no meu desenvolvimento artístico e também, trabalhar em um emprego que remunere minha vida. Sim, sei o quanto esta escolha é tensa, envolve outras pessoas e principalmente, outra perspectiva de vida. Mas como havia dito, ainda escolho a vida ao invés do sofrimento, e acredito que esta mudança maluca tudo tem haver com esta angustia que sinto hoje; com minha sanidade mental; com meu perfeccionismo profissional e com a satisfação em fazer pouca coisa, mas fazer com qualidade. Já espero ser acolhido por olhares de desprezo, pelas lições moralistas sobre emprego decente, pelo julgamento sobre minhas condutas, mas, estou tranquilo para discutir o quanto necessitar sobre o fator ”vida”, e de antemão já vou coloquializando meu texto com a palavra “foda-se” para os não participantes do meu mundo, e espero somente, aos amigos e pessoas bacanas, que antes de qualquer coisa, lembrem-se que a vida é minha e somente eu, tenho o direito de decidir em ultima instância, o que é saudável para meu espírito.

Por Bibi Serafim

18 setembro, 2009

Vida


Eu vos peço,
Quero ser desejado pelas faxineiras dos hospitais públicos
Papear com cabrochas, senhoras e datenas
Ser prazer e te chamar de puta enquanto me unha
E grita de dor
Distrair ao menos o agrado de algumas colegas de profissão
Para assim
Gozar de vossa alegria
Juntos

Ouvir e ser ouvido nos botecos e corredores dos moribundos
Tatear realidade com a desilusão da fissura matinal
Sentir o cheiro de esgoto nas flores dos mercadões municipais
Almoçar coxinha nas promoções do camelódromo central
Me exprimir na sexagésima passagem do ônibus de quarenta poltronas
Sacando uma senha infinita na espera do atendimento geral

Enquanto ainda cedo os vereadores escolhem nossas prioridades
Vou pichar mais dezenas de prédios toda vez que suspirar revolução
Deitando com aquele sorriso malandro de quem saciou o desejo enrustido
Entre os vários Serafins
E vou
Sair fora do eixo a trancar quantas vezes for possível
A faculdade do especialismo
Garantindo
Como nos direitos universais
O direito de universalizar minha vida

Não quero fingir ser razão enquanto suspiro loucura
Estarei ensandecido quando você esperar mansidão
Vou viver menos que um boêmio e cair de cama muito depois da geração saúde
Dedurar todos os não comprometidos com o prazer
Temer e ser temido enquanto apenas penso
Exigindo e eximindo palavras

Ainda preciso
Esgotar sarcasmo com os meus singelos olhares discretos
Saber das pálpebras se elas me protegem ou fazem denúncias quando insisto
Em varar madrugadas

Quero ter a certeza que não vou agradar a todos
Para assim
Finalmente
Suspeitar ou acreditar que sou um sujeito de potência peculiar.



Por Bibi Serafim

16 setembro, 2009

Vai lá Freud, explica.

Acordei
Em seguida fui treinar o ditado dos tempos verbais
No caso
O verbo ser.
Sentei ao lado da igreja, era perto de tudo
E ainda havia uma praça bacana com carrinho de churros.
Passamos horas rindo atoa, discutindo a importância da instabilidade, do egoísmo, do ateísmo; falamos também sobre a magnitude do ócio produtivo.
Enfim,
Criei o homem seqüela e seus apetrechos
Ele criou o anti-cosmos do verbo estar
Era ele, meu instinto.
E como ave, via o passado dos dias
Dizendo:
_ Para quem, usar de tanta sinceridade?
Entrei em parafusos
Depois,
Não mais rotulei sobre a importância do que é ser, estar; ética.
Não houve motivos nem saco para discutir verdades ou mentiras;
Sobrou apenas a estética para definir os padrões...
Voltei,
Pensando sobre o nada e congelando a cabeça com aquele sorvetinho que havia falado
Re-Parei
O quanto eu era...
E emprestei cinco reais para o brotherzinho levar sua esposa ao hospital mais próximo;
Ela estava grávida.
Sim, foi ele que disse.
Por Bibi Serafim

01 setembro, 2009

Sobre a moda

A jovem primípara perdera o sono
O garoto prodígio perdera o dom
O boêmio poeta perdera a inspiração
Confinados à mesmice, serão aplaudidos com satisfação e ironia.

Agora a moda é
Agora muda a moda agora
Agora a moda é muda
É hora
Muda a moda
Agora
Moda.


Por Bibi Serafim/Diano Ilha/ Lucas Paiva
Banda: Dissidente
Albúm: À Deriva ( 2009 )

O Riso



Nele me escondo, ou me divirto.
E tudo é relativo...






Por Bibi Serafim